Ginecologia · 10 de jan. de 2016 · Atualizado em 24 de jul. de 2026

Endometriose: sintomas, por que o diagnóstico demora e como é tratada

Uma doença comum, mas ainda pouco compreendida. Entenda os sinais que diferenciam a endometriose de uma cólica menstrual comum.

Revisado por Dra. Mariana Eloy Vieira — CRM-BA (CREMEB) nº 16716.493 / RQE 10426

Uma cólica forte demais para ser normal, mas normalizada por anos porque “toda mulher sente algo assim”: essa é a história de muitas mulheres que convivem com endometriose antes de receber o diagnóstico correto. Entender os sinais que diferenciam essa condição de uma cólica menstrual comum pode encurtar significativamente esse caminho.

O que é a endometriose

A endometriose é uma doença em que um tecido semelhante ao endométrio, a camada que reveste o interior do útero e que é eliminada durante a menstruação, cresce fora dele. Esse tecido pode se instalar nos ovários, nas trompas, no peritônio pélvico e, em casos mais raros, em órgãos mais distantes, como intestino e bexiga.

O problema é que esse tecido, mesmo fora do lugar, continua respondendo aos hormônios do ciclo menstrual, engrossando e sangrando internamente todo mês, sem ter para onde esse sangue ir. É esse processo, repetido ciclo após ciclo, que gera a inflamação e a dor características da doença, além de poder formar aderências entre órgãos ao longo do tempo.

Sintomas mais comuns

O sintoma mais associado à endometriose é a cólica menstrual intensa, muitas vezes descrita como bem mais forte do que a cólica comum, a ponto de atrapalhar atividades do dia a dia ou exigir faltar ao trabalho ou à escola. Mas a dor não é o único sinal a se observar.

  • Cólica menstrual intensa, que não melhora com analgésicos comuns e chega a ser incapacitante.
  • Dor durante a relação sexual, principalmente em posições de penetração mais profunda.
  • Dor pélvica fora do período menstrual, presente em vários momentos do ciclo, não só durante a menstruação.
  • Dificuldade para engravidar, presente em uma parcela significativa das mulheres com a doença.
  • Sintomas intestinais ou urinários cíclicos, como dor para evacuar ou urinar durante a menstruação, em casos onde as lesões afetam esses órgãos.

Nem toda mulher com endometriose sente todos esses sintomas, e a intensidade da dor não necessariamente corresponde à extensão da doença: casos com lesões pequenas às vezes causam dor intensa, e lesões mais extensas às vezes causam sintomas discretos.

Por que o diagnóstico demora tanto

Esse é um dos aspectos mais frustrantes da endometriose. Como os sintomas são frequentemente confundidos com cólica menstrual “normal”, muitas mulheres convivem anos, às vezes mais de uma década, com a doença antes de receber o diagnóstico correto. Parte disso vem de uma cultura que normaliza demais a dor menstrual, tratando qualquer cólica como algo que “toda mulher sente e precisa aguentar”.

Outra parte da demora vem da própria complexidade do diagnóstico: os sintomas variam muito de mulher para mulher, e nem sempre os exames de imagem mais simples conseguem identificar lesões pequenas. Isso reforça a importância de descrever a intensidade real da dor na consulta, sem minimizar, já que é essa informação que orienta a médica a investigar mais a fundo quando necessário.

O peso emocional da demora no diagnóstico

Passar anos ouvindo que a própria dor é “normal”, ou “coisa de mulher”, deixa marcas que vão além do sintoma físico. Muitas mulheres com endometriose relatam ter se sentido incompreendidas, ou até acusadas de exagero, antes de finalmente receberem um diagnóstico que validasse o que sempre sentiram.

Esse histórico importa na consulta. Se você já ouviu “é só cólica, toma um remédio e relaxa” mais vezes do que gostaria, vale insistir na descrição detalhada da intensidade da dor e do quanto ela realmente atrapalha sua rotina. Uma consulta que leva essa queixa a sério, sem minimizá-la de antemão, é o primeiro passo para reverter anos de diagnóstico adiado.

Endometriose e adenomiose não são a mesma coisa

É comum confundir as duas, já que os sintomas se parecem bastante: cólica intensa e sangramento menstrual mais volumoso. A diferença está na localização do tecido fora do lugar. Na endometriose, esse tecido cresce fora do útero, em estruturas como ovários e peritônio pélvico. Na adenomiose, ele cresce dentro da própria parede muscular do útero.

As duas condições podem, inclusive, coexistir na mesma mulher, e o tratamento de cada uma tem particularidades próprias, apesar de compartilharem algumas abordagens hormonais semelhantes. O diagnóstico correto de qual delas, ou se as duas, está presente depende de exames de imagem específicos e da avaliação da ginecologista.

Como é feito o diagnóstico

O primeiro passo costuma ser o ultrassom transvaginal, idealmente feito com um preparo específico que melhora a visualização de possíveis focos de endometriose, principalmente nos ovários e em estruturas mais profundas da pelve. Esse exame consegue identificar boa parte dos casos, especialmente os mais extensos.

Em situações mais complexas, ou quando os exames de imagem não são conclusivos, mas a suspeita clínica permanece forte, a laparoscopia é o método que permite visualizar diretamente as lesões e, no mesmo procedimento, já tratá-las quando possível. É considerada o padrão mais preciso de diagnóstico, embora nem sempre seja o primeiro exame solicitado, já que é um procedimento cirúrgico.

Fatores associados a um risco maior

A causa exata da endometriose ainda não é totalmente compreendida, mas alguns fatores aparecem associados a um risco maior de desenvolver a doença. Histórico familiar tem peso relevante: mulheres com mãe ou irmã com endometriose têm mais chance de desenvolver a própria condição. Ciclos menstruais mais curtos ou fluxo menstrual mais intenso e prolongado também aparecem associados a um risco um pouco maior em alguns estudos.

Nenhum desses fatores, isolado, determina se uma mulher vai ou não desenvolver endometriose, e a ausência deles também não significa proteção garantida. Servem mais como pontos de atenção do que como critérios de diagnóstico.

Endometriose e fertilidade

A relação entre endometriose e dificuldade para engravidar é real, mas não é uma regra absoluta. O impacto na fertilidade varia bastante conforme a localização e a extensão das lesões: casos mais extensos, principalmente os que afetam diretamente os ovários ou causam aderências significativas, têm mais chance de dificultar a gravidez do que casos mais localizados.

Muitas mulheres com endometriose engravidam sem qualquer dificuldade, e o diagnóstico da doença não deveria ser interpretado, sozinho, como uma sentença de infertilidade. Para quem está tentando engravidar e tem o diagnóstico, o acompanhamento específico ajuda a definir se existe necessidade de alguma intervenção antes ou durante essa tentativa.

Tratamento

Não existe uma cura definitiva para a endometriose, mas existem tratamentos eficazes para controlar os sintomas e a progressão da doença. A escolha depende da intensidade dos sintomas, da extensão da doença e do desejo de engravidar da paciente.

Medicações hormonais, incluindo alguns tipos de anticoncepcional, ajudam a controlar o crescimento do tecido endometrial fora do útero e a reduzir a dor, sendo a primeira linha de tratamento na maioria dos casos. Quando os sintomas são muito intensos, ou existem lesões extensas, a cirurgia por laparoscopia permite remover os focos de endometriose diretamente, com alívio significativo dos sintomas na maioria das pacientes.

Mesmo depois do tratamento cirúrgico, a doença pode recidivar, principalmente sem acompanhamento hormonal contínuo depois do procedimento. Por isso o seguimento a longo prazo, não só o tratamento pontual, costuma ser parte importante do plano de cuidado.

Mitos comuns sobre a endometriose

“É só uma cólica mais forte, não precisa de tratamento.” A dor incapacitante não é normal e não deveria ser simplesmente tolerada mês após mês, esperando que passe sozinha.

“Endometriose sempre impede engravidar.” Depende muito da extensão da doença, e muitas mulheres com o diagnóstico engravidam normalmente.

“Só existe tratamento cirúrgico.” Medicações hormonais controlam os sintomas de boa parte das mulheres, sem necessidade de cirurgia em muitos casos.

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Perguntas frequentes

O que é endometriose?

É uma doença em que um tecido semelhante ao endométrio, a camada que reveste o interior do útero, cresce fora dele, em locais como ovários, trompas e outras estruturas da pelve.

Toda cólica menstrual forte é endometriose?

Não, mas é um dos sinais mais importantes a se observar. O que diferencia a endometriose é a intensidade da dor, muitas vezes incapacitante, e a presença de outros sintomas associados, como dor durante a relação sexual.

Por que o diagnóstico de endometriose demora tanto?

Porque os sintomas são frequentemente confundidos com cólica menstrual comum, e muitas mulheres normalizam a dor por anos antes de procurar avaliação, sem saber que aquela intensidade não é o padrão esperado.

Endometriose sempre causa infertilidade?

Não sempre, mas está entre as causas conhecidas de dificuldade para engravidar. O impacto na fertilidade varia conforme a extensão e a localização das lesões, e muitas mulheres com endometriose engravidam sem dificuldade.

Como a endometriose é diagnosticada?

O ultrassom transvaginal com preparo específico consegue identificar boa parte dos casos. Em situações mais complexas, a laparoscopia, um procedimento cirúrgico, permite visualizar e confirmar as lesões diretamente.

Existe cura para a endometriose?

Não existe uma cura definitiva, mas existem tratamentos eficazes para controlar os sintomas e a progressão da doença, que vão desde medicações hormonais até cirurgia, dependendo da gravidade do caso.

Endometriose pode voltar depois do tratamento?

Sim, mesmo depois de tratamento cirúrgico, a doença pode recidivar, principalmente sem acompanhamento hormonal contínuo. Por isso o seguimento a longo prazo costuma ser parte do plano de tratamento.

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