Ginecologia · 10 de fev. de 2017 · Atualizado em 24 de jul. de 2026

Quais doenças podem ser identificadas com o exame preventivo?

Além das lesões causadas pelo HPV, o preventivo revela infecções vaginais e alterações inflamatórias. E também vale saber o que ele não detecta.

Revisado por Dra. Mariana Eloy Vieira — CRM-BA (CREMEB) nº 16716.493 / RQE 10426

Quando a maioria das mulheres pensa no exame preventivo, pensa em uma única coisa: câncer do colo do útero. Faz sentido, é o motivo pelo qual o exame existe. Mas a amostra coletada durante o procedimento carrega mais informação do que isso, e vale entender com precisão o que ela realmente consegue mostrar, e o que fica de fora.

Essa distinção importa na prática. Muita mulher sai da consulta achando que um preventivo normal é sinônimo de saúde ginecológica garantida em todas as frentes, e outra parte entra em pânico com um termo técnico no laudo que, na maioria das vezes, não representa risco nenhum. Entender o alcance real do exame ajuda a interpretar o próprio resultado com mais calma.

Lesões precursoras do câncer do colo do útero

Esse é o achado mais importante que o preventivo busca, e o motivo de ele ser tão eficaz na prevenção desse tipo de câncer. Na grande maioria dos casos, essas lesões estão associadas a uma infecção persistente por alguns tipos do HPV, um vírus muito comum transmitido por contato sexual.

O exame não detecta o vírus diretamente. Ele detecta as mudanças que o vírus provoca nas células do colo do útero, classificadas em graus diferentes de acordo com a gravidade. Uma alteração leve, chamada de ASC-US, costuma regredir sozinha em boa parte dos casos, e a conduta é repetir o exame depois de um tempo para confirmar essa regressão. Já uma lesão de alto grau exige investigação mais aprofundada, geralmente com uma colposcopia, antes de decidir qualquer tratamento.

Existe também um teste específico para o HPV, que identifica o material genético do vírus em vez das alterações celulares que ele provoca. Algumas clínicas já oferecem os dois exames juntos, já que eles se complementam: um mostra a presença do vírus, o outro mostra o efeito dele nas células.

Ter HPV não é a mesma coisa que ter uma lesão

Esse é um dos pontos que mais confunde quem recebe um resultado alterado. Existem mais de cem tipos diferentes de HPV, e a infecção pelo vírus é extremamente comum: a maioria das pessoas sexualmente ativas entra em contato com algum tipo dele em algum momento da vida, muitas vezes sem nunca saber, porque o próprio sistema imunológico elimina o vírus sozinho, sem deixar rastro.

Só uma fração das infecções persiste por tempo suficiente para provocar as alterações celulares que o preventivo detecta. É por isso que o laudo não informa qual tipo específico de HPV está presente, a não ser que o teste de HPV tenha sido feito separadamente: o preventivo tradicional avalia o efeito nas células, não identifica o vírus tipo a tipo. Receber uma lesão de baixo grau no resultado não significa ter contraído uma infecção grave nem recente. Muitas vezes é o reflexo de uma infecção antiga, que o corpo ainda está processando.

Infecções vaginais

O preventivo também pode revelar infecções que muitas vezes não dão sintoma nenhum, e que a própria mulher não saberia que tem sem o exame. As mais comuns encontradas dessa forma são a candidíase e a vaginose bacteriana, ambas com tratamento simples quando identificadas.

A candidíase costuma vir acompanhada de coceira, ardência e um corrimento esbranquiçado com aspecto de nata, embora algumas mulheres não sintam nada disso e só descubram a infecção pelo próprio exame. A vaginose bacteriana, por sua vez, está mais associada a um corrimento acinzentado com odor característico, e também pode passar despercebida por quem convive com ela.

A tricomoníase, uma infecção sexualmente transmissível, também pode aparecer no laudo. Vale um adendo importante aqui: o preventivo não é o exame padrão para rastrear infecções sexualmente transmissíveis. Ele pode apontar sinais de algumas, por acaso, mas clamídia, gonorreia, sífilis e HIV, por exemplo, exigem exames específicos, pedidos à parte quando há indicação clínica ou risco identificado na consulta.

Alterações inflamatórias

É comum o laudo trazer o termo “alterações inflamatórias”, e ele costuma gerar mais preocupação do que deveria. Na prática, geralmente indica uma causa benigna, como uma infecção leve ou uma irritação local, sem relação nenhuma com câncer.

O tratamento, quando necessário, é direcionado à causa identificada, e a conduta na maioria dos casos é simplesmente manter o acompanhamento de rotina depois disso.

O que aumenta a chance de uma lesão pelo HPV persistir

A maioria das infecções por HPV é eliminada pelo próprio corpo em até dois anos, sem deixar sequela. Alguns fatores, no entanto, aumentam a chance de o vírus persistir por mais tempo e, com isso, de uma lesão se formar: tabagismo, um sistema imunológico enfraquecido, seja por alguma condição de saúde ou por uso de certos medicamentos, e a falta de acompanhamento ginecológico regular, que atrasa a detecção de qualquer alteração enquanto ela ainda é simples de tratar.

Nenhum desses fatores garante que uma lesão vai aparecer, e a ausência deles também não garante proteção total. Por isso o rastreamento periódico continua sendo a estratégia mais confiável, independente do quanto uma mulher considere seu próprio risco baixo.

Como a amostra é analisada

Depois da coleta, a amostra segue para um laboratório, onde é preparada numa lâmina e examinada ao microscópio por um profissional especializado em citologia. Esse profissional procura por qualquer célula com características fora do padrão esperado, comparando com os critérios já bem estabelecidos para cada tipo de alteração.

Esse processo é o que torna o exame confiável mesmo quando não existe nenhum sintoma. A alteração é encontrada no nível celular, muito antes de qualquer sinal físico se manifestar, o que devolve tempo precioso para agir enquanto o tratamento ainda é simples.

O que o exame preventivo não detecta

Vale a pena saber onde o preventivo termina, porque um resultado normal não significa carta branca para descartar qualquer outra investigação ginecológica.

Câncer de ovário não é rastreado pelo preventivo. Esse tipo de câncer é avaliado por outros meios, principalmente o ultrassom transvaginal e, quando indicado, exames de sangue específicos. Miomas e cistos também ficam de fora, já que são alterações estruturais do útero ou dos ovários, visíveis por imagem, não por análise de células.

Infecções sexualmente transmissíveis, como já foi dito, também não são o foco do exame. E alterações na mama não têm relação nenhuma com o preventivo, que avalia especificamente o colo do útero.

Nada disso diminui a importância do preventivo. Só reforça que ele é uma peça específica dentro de um acompanhamento ginecológico mais amplo, não um exame único capaz de cobrir tudo de uma vez.

Mitos comuns sobre o que o preventivo detecta

“Meu preventivo veio normal, então não tenho nenhuma doença ginecológica.” Não necessariamente. O preventivo rastreia especificamente o colo do útero. Miomas, cistos, alterações no endométrio e câncer de ovário, por exemplo, dependem de outros exames para serem identificados, como o ultrassom transvaginal.

“Se aparecer alguma coisa no laudo, peguei uma DST recente.” Não é bem assim. Uma lesão relacionada ao HPV pode ser reflexo de uma infecção antiga, e infecções vaginais comuns, como candidíase, nem sempre têm relação com contato sexual recente.

“O preventivo substitui o exame de HPV.” Eles não são a mesma coisa. O preventivo tradicional mostra o efeito do vírus nas células, o teste de HPV identifica o material genético dele diretamente. Muitos serviços já pedem os dois juntos, mas isso depende da indicação da ginecologista.

“Resultado alterado é sinônimo de câncer.” Na grande maioria dos casos, não é. A maior parte das alterações encontradas no preventivo é benigna ou de baixo grau, com boa chance de resolução espontânea ou tratamento simples.

O que acontece depois de um resultado alterado

Cada tipo de achado tem um caminho diferente. Uma alteração inflamatória benigna costuma pedir só o tratamento da causa e a manutenção da rotina de exames. Uma infecção identificada tem tratamento específico, geralmente simples. Já uma lesão relacionada ao HPV pode pedir desde a simples repetição do exame em alguns meses até uma colposcopia, dependendo do grau da alteração.

Em nenhum desses casos o próprio resultado do papel decide o tratamento sozinho. É a médica quem interpreta o achado dentro do seu histórico completo, e quem define os próximos passos com calma, sem que uma palavra técnica no laudo vire motivo de pânico antes mesmo da consulta de retorno.

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Se você quer entender melhor a importância desse exame de forma mais ampla, incluindo quem deve fazer e com que frequência, temos um guia completo sobre a importância do exame preventivo. Se essa for sua primeira consulta ginecológica, também vale conferir o que levar e o que perguntar na primeira consulta. Para agendar o seu, fale direto com uma ginecologista em Candeias pelo WhatsApp.

Perguntas frequentes

O exame preventivo detecta o HPV diretamente?

O preventivo tradicional (citologia) detecta alterações nas células causadas pelo HPV, não o vírus em si. Existe um teste específico de HPV, que identifica o DNA viral diretamente, e algumas clínicas já oferecem os dois em conjunto.

O preventivo detecta infecções sexualmente transmissíveis?

Só de forma indireta e limitada. Ele pode apontar sinais de tricomoníase ou candidíase, por exemplo, mas não é o exame indicado para diagnosticar clamídia, gonorreia, sífilis ou HIV. Essas infecções exigem exames específicos, pedidos à parte.

O preventivo detecta câncer de ovário?

Não. O preventivo avalia apenas as células do colo do útero. Câncer de ovário é rastreado por outros meios, como ultrassom transvaginal e, quando indicado, exames de sangue específicos.

O preventivo detecta miomas ou cistos?

Não. Miomas e cistos são alterações estruturais, visíveis por ultrassom, não por análise de células. O preventivo e o ultrassom são exames complementares, não substitutos um do outro.

O que significa um resultado com alterações inflamatórias?

Na maioria das vezes, indica uma causa benigna e comum, como uma infecção leve, sem relação com câncer. Costuma exigir apenas tratamento da causa, quando identificada, e acompanhamento de rotina.

ASC-US é a mesma coisa que câncer?

Não. ASC-US é uma alteração leve, com frequência associada ao HPV, que em boa parte dos casos desaparece sozinha em alguns meses. A conduta costuma ser repetir o exame depois de um intervalo, não iniciar tratamento oncológico.

Se o preventivo vier normal, posso descartar qualquer doença ginecológica?

Não necessariamente. O preventivo rastreia especificamente alterações do colo do útero. Outras condições ginecológicas continuam sendo avaliadas por exame físico, ultrassom e outros exames de rotina, conforme a necessidade de cada consulta.

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