Notar secreção saindo do mamilo, fora do período de amamentação, costuma assustar. É um sintoma que carrega um peso emocional desproporcional ao risco real que ele representa na maioria dos casos, e entender as diferenças entre um derrame papilar benigno e um sinal de alerta ajuda a substituir o medo por uma decisão mais tranquila sobre quando procurar ajuda.
O que são os derrames papilares
Derrame papilar, ou descarga papilar, é o nome técnico para a saída de secreção pelos mamilos fora do contexto de gestação e amamentação. Pode acontecer em uma ou nas duas mamas, sair de um único ducto ou de vários ao mesmo tempo, e ter aparência que varia bastante: transparente, esbranquiçada, amarelada, esverdeada ou, no caso que mais preocupa, sanguinolenta.
Na maioria das vezes, a causa é benigna. Alterações hormonais, uso de certos medicamentos, ou simplesmente estimulação repetida da região, seja por atrito de roupa, exame frequente ou estímulo sexual, já são suficientes para provocar alguma secreção sem que exista doença nenhuma por trás.
Causas mais comuns
A elevação da prolactina, hormônio responsável pela produção de leite, é uma das causas mais frequentes de secreção fora da amamentação. Essa elevação pode acontecer por conta de um pequeno tumor benigno na hipófise chamado prolactinoma, por hipotireoidismo, por gravidez não percebida ainda, ou pelo uso de certos medicamentos, incluindo alguns antidepressivos, antipsicóticos e remédios para controle de pressão arterial.
Alterações benignas do tecido mamário, como ectasia ductal, uma dilatação dos ductos que costuma acontecer com o passar da idade, também podem causar secreção, geralmente esverdeada ou amarelada, sem relação com câncer.
Estimulação física repetida da região, mesmo sem nenhuma condição de saúde por trás, também é uma causa comum e subestimada. Sutiã que causa atrito constante, autoexame feito com muita frequência apertando o mamilo, e estímulo sexual regular podem, sozinhos, provocar alguma secreção.
Vale mencionar ainda o papiloma intraductal, um pequeno tumor benigno que cresce dentro de um ducto mamário e é, na prática, a causa mais comum de secreção sanguinolenta que sai de um único ducto. Apesar do nome preocupante e da aparência da secreção, a maioria dos papilomas intraductais é completamente benigna, embora a confirmação sempre dependa de investigação por imagem e, às vezes, de uma pequena biópsia.
O que é o prolactinoma
O prolactinoma é a causa hormonal mais associada a secreção persistente fora da amamentação, e vale entender melhor do que se trata, já que o nome sozinho assusta mais do que deveria. É um tumor benigno pequeno, localizado na hipófise, glândula na base do cérebro responsável por regular diversos hormônios, incluindo a prolactina.
Quando esse tumor produz prolactina em excesso, o resultado pode incluir secreção nos mamilos, irregularidade menstrual e, em alguns casos, dificuldade para engravidar. O diagnóstico é feito por exame de sangue, medindo o nível de prolactina, e confirmado por ressonância magnética da região da hipófise quando necessário. O tratamento, na maioria dos casos, é feito com medicação, sem necessidade de cirurgia, e costuma normalizar tanto a secreção quanto o ciclo menstrual.
Quando a secreção acende um sinal de alerta
Algumas características tornam a investigação mais urgente:
- Secreção espontânea, que sai sozinha, sem qualquer estímulo ou aperto.
- Secreção que sai de um único ducto, numa única mama, em vez de vir de vários pontos ou das duas mamas ao mesmo tempo.
- Aspecto sanguinolento, com coloração avermelhada ou amarronzada.
- Presença de nódulo palpável na mesma mama, associado à secreção.
- Alteração na pele ao redor do mamilo, como retração ou vermelhidão.
Nenhum desses sinais, isoladamente, confirma um diagnóstico grave. Eles indicam que vale a pena investigar com um exame de imagem, não que exista certeza de doença.
Por que a combinação de sinais importa mais do que cada um isolado
Secreção esbranquiçada nas duas mamas, sem nódulo e sem alteração de pele, tem um perfil de risco bem diferente de uma secreção sanguinolenta que sai de um único ducto numa mama só. É essa combinação de características, não um sintoma isolado, que orienta a médica sobre a urgência da investigação e qual exame pedir primeiro.
Por isso, ao notar secreção, vale prestar atenção não só na cor, mas em quantas mamas ela aparece, se sai de um ponto só ou de vários, e se veio sozinha ou só depois de algum estímulo. Esses detalhes, levados para a consulta, tornam a avaliação muito mais precisa do que a descrição genérica de “saiu uma secreção”.
O que observar em casa antes da consulta
Chegar à consulta com algumas informações já organizadas ajuda bastante na investigação. Vale prestar atenção há quanto tempo a secreção está presente, se ela aparece todos os dias ou só de vez em quando, se afeta uma mama ou as duas, se sai de um ponto específico do mamilo ou de vários, e se algum medicamento novo foi iniciado recentemente.
Vale também observar se existe relação com o ciclo menstrual, já que algumas mulheres notam mais secreção próximo do período menstrual, o que costuma ter relação com a variação hormonal natural desse momento, não necessariamente com algo fora do padrão. Anotar essas observações, mesmo que informalmente, torna a consulta mais objetiva e ajuda a médica a direcionar a investigação com mais precisão desde o início.
Como é feita a investigação
A consulta começa com perguntas sobre há quanto tempo a secreção aparece, se ela é espontânea, se afeta uma ou as duas mamas, e se existe uso de algum medicamento novo. O exame físico ajuda a identificar de qual ducto a secreção sai e se existe nódulo associado.
Dependendo do que for encontrado, mamografia e ultrassonografia mamária costumam ser os próximos passos, já que ajudam a visualizar a estrutura interna da mama e identificar qualquer alteração que não seja perceptível ao toque. Exame de sangue para medir os níveis de prolactina também pode ser pedido, principalmente quando a secreção acontece nas duas mamas sem relação aparente com estimulação física.
O diagnóstico correto evita ansiedade desnecessária
A esmagadora maioria dos derrames papilares não está associada a câncer de mama. Ainda assim, a diferença entre uma causa completamente benigna e uma que exige atenção só fica clara depois da avaliação, não antes dela.
Adiar a consulta por medo do resultado costuma ter o efeito contrário ao pretendido: em vez de evitar a má notícia, só atrasa a boa notícia que a maioria das mulheres acaba recebendo depois do exame, além de atrasar o tratamento nos casos raros em que existe, de fato, algo a ser tratado.
Se além da secreção você também sente dor nos seios, vale saber que os dois sintomas, embora às vezes coexistam, têm investigações distintas. Já escrevemos em detalhe sobre as causas mais comuns da dor nos seios, caso essa também seja uma dúvida sua.
Mitos comuns sobre a secreção nos mamilos
“Se não é sangue, não precisa de atenção.” Secreção persistente de qualquer cor, principalmente se espontânea e de um único ducto, ainda merece avaliação, mesmo sem aspecto sanguinolento.
“Só quem já teve filho pode ter esse sintoma.” Não é verdade. Mulheres que nunca engravidaram também podem apresentar derrame papilar, por diversas causas hormonais ou estruturais.
“Secreção nos mamilos sempre indica câncer.” É uma das associações mais comuns e mais equivocadas. A grande maioria dos casos tem causa benigna e tratável.
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